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8 de ago. de 2013

Emir Sader entrevista José Mujica, presidente do Uruguai


Excelente entrevista concedida pelo presidente do Uruguai José Mujica a Emir Sader. De forma calma e humildemente didática, Mujica explica através da progressista história uruguaia como conquistas que, para nos brasileiros, parecem utópicas foram atingidas.

20 de set. de 2012

Morre o Professor Carlos Nelson Coutinho


É com grande pesar que repasso a notícia de que faleceu nesta quarta-feira (19), o Professor Carlos Nelson Coutinho. Coutinho era professor titular de Teoria Política na Escola de Serviço Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ESS–UFRJ). Conhecido no Brasil e no exterior como um dos maiores especialistas na obra de Antonio Gramsci, foi responsável pela edição brasileira dos “Cadernos do cárcere” (Civilização Brasileira, 1999-2002). 
Coutinho nasceu em Itabuna, na Bahia, em 1943. Ele estudou direito, pois, segundo o ele mesmo declarou em uma entrevista a Revista Caros Amigos - em fevereiro deste ano - era onde se fazia política. “O primeiro ano da faculdade foi até interessante porque tinha teoria geral do Estado, economia política, mas quando entrou o negócio de direito penal, direito civil, ai eu vi que não era a minha e fui fazer filosofia”, disse à revista. Coutinho se formou em filosofia na Universidade Federal da Bahia, em 1965. Comunista, desde que leu “O Manifesto Comunista” pela primeira vez, Coutinho entrou no PCB aos 17 anos, onde permaneceu até 1982. Se filiou ao PT no final da década de 80 e permaneceu no partido até 2004, quando saiu para ser um dos fundadores do PSOL.  
Essa notícia representa uma grande perda não só para as Ciências Sociais brasileiras mais também para todos os movimentos de esquerda e para todos aqueles que se dizem marxistas. Se hoje eu sou marxista a culpa em grande parte recai sobre o Professor Carlos Nelson Coutinho.
Coutinho foi, ao lado do Professor Marco Aurélio Nogueira, um dos grandes responsáveis pela difusão da obra e dos trabalhos de Antonio Gramsci no Brasil. Para aqueles que conhecem a minha curta trajetória acadêmica e política e como podem observar também pelos links presentes no blog sabem que a obra de Gramsci tem uma profunda influência sobre os meus trabalhos.
Em grande parte eu chego a dizer que se eu sou marxista hoje, é graças ao estudo que fiz e venho fazendo sobre a obra do marxista sardo e foi através do Professor Carlos Nelson Coutinho que cheguei até Gramsci.
Termino o post de hoje com uma frase do Professor Carlos Nelson Coutinho da qual faço completo coro: "Sem democracia não há socialismo, e sem socialismo não há democracia"
*Com informações do Blog da Boitempo, do portal da Democracia Socialista, e do site da UFRJ

2 de set. de 2012

Roda Viva - Slavoj Žižek

Ultimamente tenho lido bastante Slavoj Žižek, por isso trago à baixo uma a edição do programa Roda Viva em que o mesmo é entrevistado.


22 de jun. de 2012

A Volta dos Golpes?


Honduras, Paraguai qual será o próximo pais latino-americano que passara por um golpe de estado?


Hoje o presidente do Paraguai, Fernando Lugo, sofreu um processo de impeachment sendo então destituído de seu posto de presidente e em seu lugar foi convocado o vice-presidente, Frederico Franco.

Ambos os golpes fora realizados sob a mascara de manobras constitucionais democráticas, e como todo golpe de estado com o pretexto de assegurar a democracia. Ambos os golpes tiveram outra característica peculiar, a rapidez dos processos político-institucionais que levaram à saída dos presidentes de Paraguai e Honduras.

Os países da América Latina ao saírem de suas ditaduras militares escolheram como modelo de governo o presidencialismo, modelo de governo que como ficou claro nos anos subsequentes à sua implementação requer um profundo controle do congresso por parte do Presidente caso este queira que suas propostas sejam aprovadas ou que seu governo chegue ao fim. Já que este mesmo parlamento é o único capaz constitucionalmente a garantir que o presidente continue no poder após sua eleição.

E de forma clara esse foi o caso do Paraguai.

A pergunta que se deve fazer é: Estaria a América Latina assistindo uma volta ao tempo dos golpes de estado?

Muita especulação pode ser feita, mas eu diria que Argentina, Venezuela e Equador podem ser os próximos. Eu espero que não.



Rodrigo Louriçal

16 de jun. de 2012

O passado teórico em novas bases


O passado teórico em novas bases

Retirado de Possibilidades da Política, Por Marco Aurélio Garcia

 

Em um momento de grave perda do poder de proposição e persuasão das grandes tradições do pensamento político, nada melhor do que uma volta às origens e de um esforço para recuperar elos perdidos ou mal entrelaçados. Se liberais e socialistas, por exemplo, nas suas variadas famílias e colorações, desejarem voltar a ter voz ativa nos debates acerca dos dilemas que atormentam as sociedades contemporâneas, terão de visitar seus mortos e repor em bases renovadas as poderosas ferramentas teóricas e ideológicas que inventaram para explicar a vida humana.

Convidar-nos a fazer essa viagem ao passado teórico com os olhos no presente e no futuro é o maior, mas não o único, mérito do livro De Rousseau a Gramsci (São Paulo, Boitempo, 2011), de Carlos Nelson Coutinho, filósofo e professor de teoria política da UFRJ.

Sendo ele um pensador marxista, leitores mais apressados poderiam achar que seu livro é um empenho unilateral para demonstrar a “superioridade” de Marx sobre o liberalismo. Nada mais equivocado. Primeiro, porque Carlos Nelson não é um marxista vulgar, interessado em elogiar sua “escola” contra as demais. Seu trabalho não é do doutrinador, mas do pesquisador, do historiador das ideias. Segundo, porque seu marxismo tem o sabor das vertentes que mais longe levaram a perspectiva dialética e totalizante anunciada no século XIX por Marx. Trata-se de um marxista da linhagem de Lukács e Gramsci, e isso deveria dizer tudo. Seu texto opera com categorias abrangentes mas tem elasticidade para compreender o dinamismo e o caráter contraditório das estruturas em que flui a vida humana atual, o lugar que nelas têm os sujeitos individuais e coletivos, as articulações dinâmicas entre seus vetores decisivos – o indivíduo e a sociedade, o Estado e o mercado, o todo e as partes.

O resultado nos convida a refletir sobre a potência das diferentes teorias políticas (e da sociedade) que demarcaram de modo particularmente intenso o processo de evolução das duas grandes tradições culturais e ideológicas da modernidade, o liberalismo e o socialismo. Podemos extrair dele, por exemplo, que as ideias liberais e socialistas, despidas de seus “excessos” e devidamente contextualizadas, demonstram ter muitos pontos de contato entre si. Isso, evidentemente, não elimina o que há de tensão, contradição e distinção entre elas – cada uma das quais porta uma bem estruturada concepção do mundo e um arsenal teórico próprio. Socialismo e liberalismo não são irmãos, e seria perda de tempo apagar suas divergências. São duas tradições distintas, e assim permanecerão, cada uma com suas apostas, suas convicções e seus códigos de conduta. Mas há algo nelas que também as aproxima e as alimenta, no mínimo fazendo com que seus seguidores reduzam suas taxas de autossuficiência e descubram, no outro, estímulos para se renovar ou corrigir suas limitações. Entre um liberal democrático e social como Rousseau e um marxista como Gramsci há muito mais comunidade do que entre Rousseau e um neoliberal ou entre Gramsci e um stalinista. Rousseau, por sua vez, antecipa teses – sobre a desigualdade, o interesse comum, o Estado, a liberdade e a democracia – que levariam seu liberalismo às fronteiras do socialismo e ajudariam Marx em suas formulações. Afinal, a superação do liberalismo pretendida pelos marxistas jamais significou a negação das ideias liberais, mas sim, ao contrário, sua superação, a assimilação do que há de mais avançado nelas.

Não é acidental que o livro de Carlos Nelson abra com um belo ensaio sobre Rousseau, o democrata liberal que tanta resistência encontra entre os liberais, siga com um ensaio sobre Hegel e a “vontade geral” para então desaguar num conjunto de textos dedicados a Gramsci, o mais universal, polêmico e criativo pensador marxista. O livro não diz isso, mas é como se dissesse: estão nessas expressões da teoria política alguns dos mais importantes elos que propiciam a fundamentação de uma teoria moderna da democracia. Elos tensos, complexos, nada mecânicos. Se Rousseau descobrira na “vontade geral” o veículo para afirmar a prioridade do público sobre o privado, Hegel buscaria a conciliação entre a liberdade individual e uma ordem social realista na qual o Estado responderia por funções construtivas fundamentais, como garante da vontade geral. Tal inflexão, que alargou o liberalismo, desembocaria em Marx e ganharia plena expressão com Gramsci, que refunda a teoria do Estado sem subsumir a ela a democracia e a liberdade individual.

Seria pertinente perguntar o que teria levado liberais e socialistas, com suas ideias tão carregadas de convergências potenciais, a construir trajetórias tão díspares e competitivas. Uma resposta seria: sempre que a questão democrática substantiva (ou seja, não meramente procedimental) foi privilegiada, como em Rousseau, Marx e Gramsci, liberais e socialistas puderam caminhar juntos e se retroalimentar. Talvez seja por isso que o livro marque muitos pontos ao sugerir que “uma teoria da democracia adequada ao nosso tempo” só poderá ser elaborada mediante um “profundo diálogo com a herança de Rousseau”, a incorporação das “contribuições decisivas” de Hegel e a devida atualização do marxismo e da tradição socialista, para o que Gramsci fornece base rica e consistente.


Livros como esse abrem enormes clareiras para o pensamento crítico interessado em agir sobre o mundo. [Publicado em O Estado de S. Paulo, Caderno Sabático, 15/06/2012, p. S7].




10 de nov. de 2011

O Debate da Segurança nas Universidades e a Democracia


Ainda continuando nos temas que foram “despertos” devido à ocupação da reitoria da USP e à reintegração de posse efetuada pela PM, só direi algumas palavras sobre o porquê não deve por polícia para realizar a segurança de universidades públicas.

Não se deve entregar à PM a responsabilidade de fazer a segurança internar dos campi universitários pelo mesmo motivo que não se deve entregar ao exercito a responsabilidade pela segurança pública.

O exercício é treinado para enfrentar o inimigo externo sem medir esforços em seu uso da violência para neutralizar a ameaça, ao inimigo externo não é conferida a condição de ser humano detentor de direitos e, portanto a morte ou aniquilação do mesmo não representa uma quebra do direito máximo que nos damos de defender a vida humana.

No Brasil a polícia militar é treinada para fazer uso do monopólio da violência conferido ao estudo como método de instaurar a ordem através da repressão. Não está entre o modus operandi da PM o dialogo com aqueles que violem a ordem estatal. Essa perspectiva aliada à natureza antidemocrática das instituições políticas das universidades brasileiras e em alguns casos do próprio movimento estudantil constitui um ambiente de barril de pólvora onde essas duas instâncias se encontram.

Se o debate acerca da segurança nos campi das universidades brasileiras continuar a ser justificado pela máxima de que os fins justificam os meios então é melhor desistirmos da democracia e voltarmos à ditadura.

9 de nov. de 2011

A Questão da USP


A Questão da USP a meu ver é fruto em muitas vezes de três caminhos que a muito foram seguidas pelas universidades públicas brasileiras.


O Caminho do isolamento em relação à sociedade, universidade que muitas vezes tem seu espaço físico a alojado em meio às parcelas mais pobres e marginalizadas da sociedade ao qual pertence uma legião de jovens ainda sem perspectivas de futuro a não ser olhar os “privilegiados” seguirem e ganharem suas vidas em quanto às deles se findam na violência “naturalizada" das periferias brasileiras.


O Caminho da decisão de não mais formar seres humanos para a sociedade, mas de programar maquinas para o mercado, quando falo seres humanos não estou aqui levantando uma bandeira política, longe de mim achar que sou o dono da verdade, mas no momento em que a universidade desistiu de voltar seu ensino para a sociedade para mirar as “demandas” do mercado de trabalho, alguma coisa deve estar errada.

O Caminho do autoritarismo, uma herança nefasta que a ditadura militar deixou para nossas universidades foi o do fim do dialogo, o fim da conversa, e a ascensão dos cacetes, revolveres e fuzis como argumentos de negociação. Não que a USP não deva ter um plano de segurança, pois uma universidade de seu porte e importância dentro da história brasileira deve-se manter como um espaço seguro e aberto à pluralidade mas instituir de forma unilateral sem ao menos esgotar todas as possibilidades de construção de um programa que viesse a gerir a segurança do campus juntamente com a comunidade acadêmica é um desrespeito à própria USP. Quando trago a necessidade de debate com a comunidade acadêmica nãos e pode excluir também a sociedade que convive no mesmo espaço geográfico da USP, pensar que a USP pode ser transformada numa fortaleza de segurança cercada por muros altos e fossos enquanto o seu redor a sociedade está entregue à própria sorte é querer tapar com uma peneira furada.

Por fim não se pode falar de uma universidade sem falar daqueles que em maior grau são a razão da mesma existir, os estudantes. Aqueles que conhecem o movimento estudantil brasileiro sabem que qualquer generalização não só é burra como é fruto do senso comum dos que muito falam e nada dizem.

Não se pode transferir o erro de abordagem, ou erro estratégico, de uns grupos para toda a classe estudantil. A meu ver a ocupação da reitoria por um poucos grupos entre as dezenas de matizes políticas e ideológicas que formam o movimento estudantil fatalmente caiu num resultado final que era o mais vantajoso para aqueles os quais os grupos questionavam, o de legitimar ante a opinião pública, e aqui incluo uma parcela dos estudantes, a ideia de que é com repressão que o “alienado” e “cooptado” movimento estudantil deve ser tratado. Parece-me que de nada serviu de útil, como caso a ser estudo para a realização de uma autocritica de como o ME é exercício no Brasil, a experiência dos estudantes chilenos de que o primeiro aliado que os estudantes devem buscar é a sociedade civil. Enquanto insistirmos no erro de apressadamente no utilizarmos de nossos últimos recursos, antes que se tenha esgotado esforços para conquistar a sociedade para nossa pauta, e aqui falo como estudante e como militante político, continuaremos a cometer o erro estratégico de cair nas armadilhas daqueles os quais nos opusemos.

E aos que discordam de minhas palavras, vamos debater, vamos discutir, vamos confrontar ideias e opiniões, vamos fazer política.

13 de out. de 2011

O casamento entre democracia e capitalismo acabou


Slavoj Zizek




Durante o crash financeiro de 2008, foi destruída mais propriedade privada, ganha com dificuldades, do que se todos nós aqui estivéssemos a destruí-la dia e noite durante semanas. Dizem que somos sonhadores, mas os verdadeiros sonhadores são aqueles que pensam que as coisas podem continuar indefinidamente da mesma forma.

Não somos sonhadores. Somos o despertar de um sonho que está se transformando num pesadelo. Não estamos destruindo coisa alguma. Estamos apenas testemunhando como o sistema está se autodestruindo.

Todos conhecemos a cena clássica do desenho animado: o coiote chega à beira do precipício, e continua a andar, ignorando o fato de que não há nada por baixo dele. Somente quando olha para baixo e toma consciência de que não há nada, cai. É isto que estamos fazendo aqui.

Estamos a dizer aos rapazes de Wall Street: “hey, olhem para baixo!”

Em abril de 2011, o governo chinês proibiu, na TV, nos filmes e em romances, todas as histórias que falassem em realidade alternativa ou viagens no tempo. É um bom sinal para a China. Significa que as pessoas ainda sonham com alternativas, e por isso é preciso proibir este sonho. Aqui, não pensamos em proibições. Porque o sistema dominante tem oprimido até a nossa capacidade de sonhar.

Vejam os filmes a que assistimos o tempo todo. É fácil imaginar o fim do mundo, um asteróide destruir toda a vida e assim por diante. Mas não se pode imaginar o fim do capitalismo. O que estamos, então, a fazer aqui?

Deixem-me contar uma piada maravilhosa dos velhos tempos comunistas. Um fulano da Alemanha Oriental foi mandado para trabalhar na Sibéria. Ele sabia que o seu correio seria lido pelos censores, por isso disse aos amigos: “Vamos estabelecer um código. Se receberem uma carta minha escrita em tinta azul, será verdade o que estiver escrito; se estiver escrita em tinta vermelha, será falso”. Passado um mês, os amigos recebem uma primeira carta toda escrita em tinta azul. Dizia: “Tudo é maravilhoso aqui, as lojas estão cheias de boa comida, os cinemas exibem bons filmes do ocidente, os apartamentos são grandes e luxuosos, a única coisa que não se consegue comprar é tinta vermelha.”

É assim que vivemos – temos todas as liberdades que queremos, mas falta-nos a tinta vermelha, a linguagem para articular a nossa ausência de liberdade. A forma como nos ensinam a falar sobre a guerra, a liberdade, o terrorismo e assim por diante, falsifica a liberdade. E é isso que estamos a fazer aqui: dando tinta vermelha a todos nós.

Existe um perigo. Não nos apaixonemos por nós mesmos. É bom estar aqui, mas lembrem-se, os carnavais são baratos. O que importa é o dia seguinte, quando voltamos à vida normal. Haverá então novas oportunidades? Não quero que se lembrem destes dias assim: “Meu deus, como éramos jovens e foi lindo”.

Lembrem-se que a nossa mensagem principal é: temos de pensar em alternativas. A regra quebrou-se. Não vivemos no melhor mundo possível, mas há um longo caminho pela frente – estamos confrontados com questões realmente difíceis. Sabemos o que não queremos. Mas o que queremos? Que organização social pode substituir o capitalismo? Que tipo de novos líderes queremos?

Lembrem-se, o problema não é a corrupção ou a ganância, o problema é o sistema. Tenham cuidado, não só com os inimigos, mas também com os falsos amigos que já estão trabalhando para diluir este processo, do mesmo modo que quando se toma café sem cafeína, cerveja sem álcool, sorvete sem gordura.

Vão tentar transformar isso num protesto moral sem coração, um processo descafeinado. Mas o motivo de estarmos aqui é que já estamos fartos de um mundo onde se reciclam latas de coca-cola ou se toma um cappuccino italiano no Starbucks, para depois dar 1% às crianças que passam fome e fazer-nos sentir bem com isso. Depois de fazer outsourcing ao trabalho e à tortura, depois de as agências matrimoniais fazerem outsourcing da nossa vida amorosa, permitimos que até o nosso envolvimento político seja alvo de outsourcing. Queremos ele de volta.

Não somos comunistas, se o comunismo significa o sistema que entrou em colapso em 1990. Lembrem-se que hoje os comunistas são os capitalistas mais eficientes e implacáveis. Na China de hoje, temos um capitalismo que é ainda mais dinâmico do que o vosso capitalismo americano. Mas ele não precisa de democracia. O que significa que, quando criticarem o capitalismo, não se deixem chantagear pelos que vos acusam de ser contra a democracia. O casamento entre a democracia e o capitalismo acabou.

A mudança é possível. O que é que consideramos possível hoje? Basta seguir os meios de comunicação. Por um lado, na tecnologia e na sexualidade tudo parece ser possível. É possível viajar para a lua, tornar-se imortal através da biogenética. Pode-se ter sexo com animais ou qualquer outra coisa. Mas olhem para os terrenos da sociedade e da economia. Nestes, quase tudo é considerado impossível. Querem aumentar um pouco os impostos aos ricos? Eles dizem que é impossível. Perdemos competitividade. Querem mais dinheiro para a saúde? Eles dizem que é impossível, isso significaria um Estado totalitário. Algo tem de estar errado num mundo onde vos prometem ser imortais, mas em que não se pode gastar um pouco mais com cuidados de saúde.

Talvez devêssemos definir as nossas prioridades nesta questão. Não queremos um padrão de vida mais alto – queremos um melhor padrão de vida. O único sentido em que somos comunistas é que nos preocupamos com os bens comuns. Os bens comuns da natureza, os bens comuns do que é privatizado pela propriedade intelectual, os bens comuns da biogenética. Por isto e só por isto devemos lutar.

O comunismo falhou totalmente, mas o problema dos bens comuns permanece. Eles dizem-nos que não somos americanos, mas temos de lembrar uma coisa aos fundamentalistas conservadores, que afirmam que eles é que são realmente americanos. O que é o cristianismo? É o Espírito Santo. O que é o Espírito Santo? É uma comunidade igualitária de crentes que estão ligados pelo amor um pelo outro, e que só têm a sua própria liberdade e responsabilidade para este amor. Neste sentido, o Espírito Santo está aqui, agora, e lá em Wall Street estão os pagãos que adoram ídolos blasfemos.

Por isso, do que precisamos é de paciência. A única coisa que eu temo é que algum dia vamos todos voltar para casa, e vamos voltar a encontrar-nos uma vez por ano, para beber cerveja e recordar nostalgicamente como foi bom o tempo que passámos aqui. Prometam que não vai ser assim. Sabem que muitas vezes as pessoas desejam uma coisa, mas realmente não a querem. Não tenham medo de realmente querer o que desejam. Muito obrigado

Tradução de Luis Leiria para o Esquerda.net Direto de Carta Maior